O veterano Ron Gilbert, criador de clássicos como Monkey Island e fundador da Terrible Toybox, confirmou que interrompeu o desenvolvimento de seu novo RPG — um projeto que ele descrevia como “Zelda clássico encontra Diablo encontra Thimbleweed Park”. A decisão veio depois de meses tentando viabilizar a produção com uma equipe mínima e propostas de publishers que, segundo ele, simplesmente não faziam sentido.
O jogo, anunciado em 2024, vinha sendo desenvolvido por um time de apenas três pessoas e carregava a ambição de resgatar a nostalgia dos action-adventures de mundo aberto, combinando exploração, combate e humor característico de Gilbert. Mas desde cedo o escopo se mostrou maior do que o estúdio poderia sustentar sozinho. Em entrevista, o criador revelou que não tinha “nem o tempo, nem o dinheiro” necessários para tornar o RPG real.
Gilbert contou que apresentou o projeto a diversas publishers, mas todas as ofertas foram decepcionantes. Para ele, a indústria atual procura apenas apostas seguras, deixando pouco espaço para ideias que fogem das tendências do momento. “Um Zelda old-school em pixel art não é ‘o grande item quente’, então os publishers não enxergam um potencial de cem milhões de dólares”, comentou.
A frieza das negociações reforçou sua percepção de que o mercado está cada vez mais guiado por fórmulas e análises matemáticas. Segundo ele, isso empurra os estúdios a produzir jogos parecidos com os do ano anterior, evitando experimentações que antes impulsionavam o setor. É justamente por isso que Gilbert costuma defender a cena indie, que considera mais livre, criativa e disposta a abraçar o estranho.
A comunidade reagiu com tristeza, mas também com compreensão. Muitos fãs lamentaram a perda de um projeto que parecia unir nostalgia e inovação, enquanto outros apontaram como o cancelamento ilustra um problema maior: a dificuldade de financiar jogos de médio porte que não seguem modelos previsíveis.
O fim desse RPG deixa um sabor agridoce. Por um lado, a indústria perde um projeto que carregava a assinatura única de um dos nomes mais influentes da história dos games. Por outro, a franqueza de Gilbert reacende debates importantes sobre o acesso a financiamento, o papel dos publishers e o espaço para projetos autorais em um mercado cada vez mais padronizado.
Ainda assim, o próprio desenvolvedor deixa claro que não pretende abandonar a experimentação. Sua defesa do espírito indie indica que, mesmo sem esse RPG, ele continua buscando caminhos onde a criatividade possa florescer sem as amarras do mercado tradicional.



